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Literatura

Carta pra Dindi

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Releitura de Machado – A Cartomante
Arte @Hullunainem

RIO DE JANEIRO, DEZEMBRO VERMELHO

” Era uma vez em…

Não! Não posso começar como em um conto de fadas. Apesar da receita certeira de amor para literatura, vou-lhes contar uma história nada convencional que navega no faroeste de corações.

Era 1969 e o vento soava dós, rés, mis, fás e sois de guitarra. Amora, Wilma e Déco, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação de onde surgira todo aquele amor pelo rock e sentimento de liberdade.

O país sofria a tiros e fios e tortura. Mas a juventude, embalada pela contracultura, só queria saber de se amar, se perder e se encantar.

Amora, cabelos encaracolados ruivos, dentes grandes e um belo par de olhos verdes d’ água.  Era inquieta, falava muito. Sonsa. Gostava dos embalos de Janis Joplin e suas picadas com flores no cabelo. Tinha um fusca azul céu, era a moderninha de botas brancas.

Já Wilma era uma milionária de sonhos. Queria cursar arquitetura e se perdia de chorar aos agudos melancólicos de Sapoti na rádio – tudo escondido! Era romântica e tinha uns trejeitos meio rústicos, andava “jagunça”. Tinha um bom coração. Gostava de jeans e camiseta – onde já se viu?

Acabara de chegar ao Rio de Janeiro com a família, vinda de Porto Alegre. Em sua mochila, o Manifesto do Partido Comunista, sua Rolleiflex – coisa da qual atribuía maior parte de seu tempo clicando pessoas, pássaros e insetos – e meia dúzia de camisetas com aquela bocarra vermelha dos Rolling Stones – ninguém sabia o que era isso, Rolling Stone, mas a América era o que tinha de mais moderno. Wilma era minha prima, de segundo grau. A eclética.

E eu sou o Déco. Na verdade me chamo André, mas sou poeticamente conhecido como Déco no meu clube de mimeógrafo. Sou poeta de zine, músico de boteco e completamente apaixonado por Amora, minha namorada e verdadeiro amor desde que tínhamos 13 anos de idade.

– Ei, tudo bem? Meu nome é Amora e o seu? Muito prazer. Você sabia que esses bichos são nojentos e têm pulgas?

– É Wilma, prazer é todo seu.

E sai andando com sua velha companheira, a câmera, clicando pombos e assobiando como um velho malandro.

Intrigada com a postura diferente de Wilma, Amora tenta nova aproximação.

– Você gosta de fotografias. Já viu a nova série de Diane Von Hallen que saiu nos mimeógrafos da PUC? São tropicalistas! Papagaios que se confundem com mulheres nuas, palmeiras e automóveis. Dizem que é o que vão acontecer no ano 2000, isso se o mundo não acabar né…

Wilma olha para Amora e não responde. Caminha em direção a um carro de passeio mas feliz em encontrar alguém que gostasse de arte. Lá na escola dela, em Porto Alegre, ninguém gostava de fotos, pincéis e rock’n’roll. As meninas cresciam para casar, constituir família e ter filhos. Os rapazes tinham um único destino: o de ser doutor. Ela queria mais! Se sentia estranha naquele corpo, naquele padrão que a obrigava a usar saia, ser católica e omissa.

Era sábado.

Como meus tios e Wilma tinha chegado do sul, meu pai resolveu fazer um enorme almoço de boas vindas. Bistecas, batatas coradas, arroz com lentilhas, salada tropical com bastante milho, feijão vermelho e farinha amarela.

– Bimba – assim que chamamos curiosamente Wilma – essa é minha namorada Amora. Ela também gosta de fotografias e música americana.

Wilma fica vermelha de vergonha ao reconhecer Amora. A agitada menina que conhecera na Praça era namorada de seu primo. Sua vergonha se dera por sua antipatia com um fundo de interesse.

– Então a fotógrafa de pulgas é Wilma, sua prima.

– Por que fotógrafa de pulgas?

– Nos conhecemos hoje, ali na pracinha. Desculpe Amora pela minha falta de polidez. Aqui no Rio de Janeiro as pessoas são muito ‘conversadas’, pra frente.

Passada toda vergonha, as duas se entreolharam durante toda a comemoração de boas vindas. E quem disse que o olhar não diz nada?

Já era quatro da tarde e meu tio estava cansado da viagem. Foi deitar -se na rede da varanda, afastando -se de Wilma. Amora, atrevida, jogada, aproveitou o momento e tratou de puxar assunto.

– Então Bimbinha – com sorriso de canto – ta afim de que hoje? Eu e Déco vamos ao Sarau de uns  baianos. Quer ir?

– Acho melhor não, deixa…

– Vamos! Vai ser legal, apaguemos a primeira vista e vamos começar de novo. Prazer, sou Amora! Estendendo -lhe a mão como forma de cumprimento.

Engraçado como ao longe já percebia que ali nascia uma grande amizade. Wilma quebrara todo o gelo com aquele aperto de não e rapidamente engatara num assunto sobre livros, poesias tropicais e Woodstock – elas queriam estar lá.

Tomamos o velho Zé, fusca de Amora, e fomos a Lapa. Estacionando na Mém de Sá, ouvimos um chiado.

– Ei, psiu. Xiu, vocês mesmo. Que energia clara! Já conhecem o trabalho de Madame Lépreia? Ela enxerga seu futuro através de tarô celta. Faz trabalhos de amor, despacha o demônio e lê essas cartas mágicas. Entrem, vamos, os desafio! Mal não faz…

Os três seguem andando rápidos e rasteiros.

O Sarau estava lindo. Todo decorado de arranjos com cajus e flores coloridas. A iluminação ficava por conta de pisca-piscas natalinos, tudo no maior improviso e estilo por aqueles baianos que ninguem sabia quem era.

Tocou Jovem Guarda, Jimi Hendrix, João Gilberto, Beach Boys. Declararam Bertolt Brecht como forma de protesto e dezenas de poesias de amor. Umas lindas, sinceras, me encaram muito. Do Vinícius, lá de Ipanema. Diziam que ela era da nova bossa, novo samba… Sei lá. Estávamos todos na onda do rock, mas aquele cara me encanta.

Dançamos juntos, cantamos juntos. Wilma declamou poesias feministas, Amora fez louvores a paz mundial e ao amor entre pessoas, sem preconceito. E eu, já tocado, fiquei no meu canto com a minha gaita.

Me perdi das meninas por cerca de três horas. O que havia acontecido ? Wilma ainda não conhece muito bem o Rio de Janeiro.

Desci em direção ao Zé e lá estavam elas, juntas, amigas, inseparáveis. Mas em um dia de amizade? Estranhei.

O rapaz, vestido de roxo e prata:

– E ai, Lépreia os aguarda. Amor? Dinheiro? Futuro? Que energia clara!

Ao se deparar comigo, Wilma se assusta. Amora rapidamente me abraça. O rapaz me convida novamente para conhecer os trabalhos de Madame Lépreia. Eu nego, finjo que não quero,as movido pelo esoterismo, moda de meu tempo, subi a velha escadaria e me deparei com um mulher alta, portuguesa, beiços carnudos, nariz grande e cabelos negros. Toda vestida de preto com bijuterias coloridas. Parecia um pavão. Desconfiei. Calado, cortei o baralho e esperei que ela me dissesse algo.

– Existe um nó em sua relação. Mas tome cuidado, a curiosidade matou a gato. Novas experiências são sempre bem vindas quando feitas   em conjunto. Quando cada um toma uma direção, há perda. É como um cristal, quando se quebra, não já volta.

Fiquei instigado. Paguei cerca de 500 dinheiros por aquelas palavras. Alguma coisa faz sentido

Desci a escada e lá estavam as duas, amigas,  íntimas, cheias de assunto.

Voltamos para Laranjeiras. Já era noite. Amora se despediu de nos, entramos pra casa.

Acordo ao meio dia. Wilma tinha saído pra fotografar com Amora.

Como assim essa amizade toda? Em apenas um dia?

Fui atrás das duas. Lá estavam elas, amigas. Pareciam se conhecer a vinte e tantos anos. Amora já gostara até de pombos.

Em menos de quarenta e oito horas, minha cabeça “turbilhava”.

Como pode duas pessoas se tornarem tão amigas tão rápido, com tanta intimidade e prazer de estar perto?

Cheguei perto das duas e Wilma se assustou.

Wilma vendia suas fotografias Jornalísticas pra ganhar uma grana e manter seu hobby. Filmes para fotografias eram caros. Amora a apresentara para Carlos Bornest, editor do Correio da Manhã.

Wilma, minha prima que chegara antes de ontem do sul, hoje já era melhor amiga de minha namorada e fotojornalista do Correio da Manhã. E eu, um poeta mastigado, no auge da minha juventude, vivendo de conhaque, camel e cantorias boêmias pra levantar um trocado.

Comecei a receber bilhetes anônimos que diziam frases do tipo: ” Cuidado com o rock das aranhas “. O que significa aquilo? Quem me mandou aquilo?

Passados um ano ainda não me conformei.

Wilma, aquela “sapatona” roubou minha mulher. Amora, meu grande amor, não pode viver nessa vida saturnal, sem moral.

E hoje estou aqui, contando-lhes essa história a qual não me conformo.

Estou inundado de sentimentos. Apavorado e largado a moscas, bebida barata e guimbas de cigarro. Minha vida não tem sentido sem Amora. Não suporto saber que eu, homem, sensível, honesto e poeta, fui largado e traído.

Por esse motivo, se não for pra ficar comigo, prefiro viver sem nó, sem amor, sem céu, sem… ”

E deu um tiro na cabeça, suicidando -se por não suportar ter sido trocado por uma mulher, também forte e sensível, afim de viver  um amor sem amarras, preconceitos e pudores. Amor por amor.

Déco, o poeta que tentou construir um ninho no coração de Amora.

Amora, preferiu construir seu Minho no coração de Wilma.

De todo amor, ficou o que valia a pena

Madame Lépreia de Rosas Turmalinas

( banhos, cartas e chamego)

DINDI – TOM JOBIM

“Dindi” é uma canção composta por Antonio Carlos Jobim com letras de Aloysio de Oliveira.

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