banner ocb
DMT

DMT: misticismo versus ceticismo

DMT

Teorias místicas e científicas acerca das alucinações provocadas pelo DMT.

Escrever sobre DMT sob a ótica química e científica, fugindo da espiritualidade, é bastante difícil. Um dos fatores mais marcantes no DMT é que ele é uma das substâncias da Ayahuasca, bebida alucinógena usada ritualmente por populações amazônicas e milhares de adeptos. O que se sabe ainda é pouco, o suficiente para tirarmos algumas teorias, poucas conclusões e muito misticismo. Dizer que tudo não passa de estímulos no cérebro faz todo sentido assim como dizer que entrar em contato com nosso subconsciente pode ser o portal que tanto buscamos para entender Deus, o mundo e o universo. 

Este texto foi adaptado, principalmente, do artigo “DMT: porta para realidade, fantasia ou o quê” com outras pesquisas que trazem os dois lados da moeda, carregado com muita ciência e especulação.   

DMT existe no corpo?

O Dr. Rick Strassman é o responsável pela ideia de que o DMT é liberado quando nascemos e quando morremos. Ele realizou um projeto de cinco anos para investigar os efeitos do DMT e administrou cerca de 400 doses do medicamento para 60 voluntários. Ao longo de seu trabalho, ele e sua equipe cunharam uma nova escala de classificação chamada Hallucinogen Rating Scale (HRS), que foi amplamente aceita em toda a comunidade internacional de pesquisa – mais de 45 artigos documentaram seu uso como um instrumento sólido para medir os efeitos psicológicos. Talvez você já tenha ouvido falar do seu livro mais famoso – DMT: a molécula do espírito. Nele, ele escreve que DMT “é uma parte da composição normal de humanos e outros mamíferos; animais marinhos; […] cascas, flores e raízes”.

Apesar de não ser considerado comprovado cientificamente, com base em suas extensas pesquisas e observações, o Dr. Strassman aponta que, quando uma pessoa está se aproximando da morte ou possivelmente mesmo em um estado de sonho, o corpo libera quantidades relativamente grandes de DMT. A maioria de seus voluntários relatou encontros com não-humanos e experiências espirituais. Dr. Strassman acredita que o DMT poderia explicar algumas das imagens  descritas por sobreviventes de experiências de quase-morte, por exemplo.

Ele afirmou que: “Vinte e cinco anos atrás, cientistas japoneses descobriram que o cérebro transporta ativamente o DMT através da barreira hematoencefálica em seus tecidos. Eu não conheço nenhuma outra droga psicodélica que o cérebro trata com tal ânsia […]. Se o DMT fosse apenas um subproduto insignificante do nosso metabolismo, por que o cérebro faz o seu caminho para atraí-lo para seus limites?”.

Os crentes e os céticos

Os usuários do DMT relataram experiências bastante extraordinárias, como visões de paisagens alienígenas, incluindo estações espaciais, juntamente com encontros com entidades não-humanas muito estranhas, incluindo insetos gigantes, elfos, cactos inteligentes e muito mais. O fenômeno desses encontros sob a influência do DMT inspirou alguns debates sobre o que estes podem realmente ser. Por exemplo, um artigo no site Erowid discute uma série de possibilidades, incluindo visões céticas das entidades como alucinações, ou talvez aspectos personificados da mente inconsciente do usuário, bem como visões mais especulativas de que eles têm uma existência real de algum tipo, talvez em uma realidade alternativa.  Strassman afirma que ele e os voluntários nos estudos sentiram que a explicação “mais intuitivamente satisfatória” dessas experiências era que o DMT, de alguma forma, permite que uma pessoa perceba genuínas “realidades paralelas” habitadas por seres inteligentes. Ele ainda admitiu que não possui provas corroborantes.

James Kent, autor de Teoria da informação psicodélica: o xamanismo na era da razão, tem uma visão mais cética e apresenta algumas ideias intrigantes. Segundo ele, DMT, como outros psicodélicos clássicos, atuam em locais receptores de serotonina (5-HT2A), o que produz interrupções no sistema de processamento visual, resultando em fenômenos alucinantes, não necessariamente assumindo que ele abre um canal para outro universo.

Kent argumenta que os psicodélicos hiper ativam o que ele chama de espaço de trabalho imaginativo. Este espaço é altamente ativo durante o sonho e é confundido com a realidade. Sob a influência dos psicodélicos, as entradas sensoriais estão sobrecarregadas e torna-se difícil distinguir entre a entrada do mundo “real” e a entrada do espaço de trabalho imaginativo. Ele argumenta que as pessoas têm uma tendência natural de perceber formas antropomórficas em dados aleatórios, como ver rostos em manchas de tinta. Como o DMT produz imagens visuais caleidoscópicas, Kent argumenta que é natural que surgirão imagens antropomórficas que se tornem mais detalhadas à medida que a pessoa “sonha” em foco. Essas entidades antropomórficas, não surpreendentemente, se comunicam usando dados da mente inconsciente da pessoa. Em suma, ele diz, a combinação do sistema visual exagerado combinado com a imaginação de alguém produz contato de entidade.

Ele também é cético em relação às alegações feitas por Strassman sobre o DMT visitar outras realidades. Ele argumenta que, sob a influência do DMT, o cérebro tenta dar sentido aos estímulos visuais caóticos e porque os padrões e as imagens são tão estranhos à experiência normal, o cérebro constrói visões de uma paisagem alienígena habitada por entidades igualmente estranhas. Contrariamente às afirmações de que as paisagens vistas permanecem consistentes e estáveis ao longo do tempo, ele argumenta que os mundos DMT são fugazes, efêmeros e mudam constantemente, sem uma estrutura sólida e consistente. Ele acha que as pessoas romantizam o estado DMT e “editam” suas experiências. Ou seja, eles reconstroem suas memórias para produzir uma narrativa mais consistente.

Explorando a trip

Foram feitas propostas para testar se as “realidades alternativas” percebidas sob o DMT e as entidades que as habitam existem de forma objetiva. Isso envolveria voluntários pedindo às entidades que fornecessem informações que o voluntário não poderia saber. Por exemplo, em uma experiência proposta, um usuário DMT receberia um grande número de vários dígitos e pediria para que as entidades quebrassem o número em seus fatores de número primário. Se isso fosse bem sucedido, isso proporcionaria provas plausíveis de que é possível que as pessoas percebem um lugar objetivamente real sob efeito do DMT.

De qualquer maneira, a experiência com DMT é única, apesar de seus mistérios não desvendados. Por ser considerada uma droga psicodélica, deve ser usada com precaução. Apesar de o composto químico não ser o mesmo, em um artigo anterior coloco algumas precauções que devem ser tomadas ao usar psicoativos e que também se aplicam ao DMT. É essencial que a pessoa tenha consciência das propriedades da substância e da existência de alucinações inexplicáveis, sem que pense que nunca irá “voltar”. Uma experiência mística ou, no mínimo, misteriosa, precisa de uma mente confortável para recebê-la. Alucine com moderação.

Foto em destaque: Alex Grey

 

Comente também!

comentários

banner ocb
1 Comment

1 Comment

  1. Pingback: Ayahuasca: da expansão da mente à psicose - Psicodelizando

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

To Top