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Ciência

Eram os gregos psiconautas?

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Escrito por Beatris Ribeiro Gratti*, membro da Associação Psicodélica do Brasil.

Exaltação das flores sec V a.C. Museu do Louvre 1 - Eram os gregos psiconautas?

No último dia 15 de outubro, tive uma grata oportunidade de compartilhar um pouco da minha pesquisa sobre a Grécia Antiga e o estados não-ordinários de consciência na III Bienal Internacional de Cultura Psicodélica, que ocorreu na minha cidade natal, Campinas. Cidade desafiadora, último lugar do último país a abolir a escravidão, cidade que demoliu um teatro de ópera do porte do teatro de Manaus para favorecer o fluxo de carros na região de comércio, cidade que tenta aprovar uma lei inconstitucional para multar usuários de drogas. Fazer cultura e falar de psicoativos aqui não é tarefa fácil. Por isso todo respeito e admiração à equipe da Bienal, por criar um verdadeiro oásis de cultura e informações sobre psicodélicos.

Nesta ocasião, falei sobre a busca por uma palavra que dê conta de simbolizar a experiência mística catalisada por alguns psicoativos, o que levou a criação do neologismo “enteógeno” no final dos anos 70 através de uma interpretação original dos Mistérios Eleusinos por Gordon Wasson, Albert Hofmann e Carl Ruck.

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Tabuinha de Ninnion, mostrando a peregrinação de Atenas à Elêusis. Fonte: Wikipedia.

Os Mistérios eram rituais religiosos fechados (só os iniciados podiam participar) e secretos cujo propósito era, segundo Walter Burkert, importante estudioso da Grécia Antiga, “uma mudança de consciência através da experiência do sagrado”. Havia várias dessas cerimônias por todo o mundo grego, sendo as mais importantes os Mistérios da Samotrácia, os Mistérios Órficos-Báquicos e o dos Coribantes. Mas a mais famosa de todas, conhecida como Grandes Mistérios, eram os Mistérios Eleusinos, que ocorriam uma vez ao ano, no mês de Boedromion (equivalente ao nosso mês de setembro) e reunia cerca de 3000 pessoas..

Um dos grandes diferenciais dos Mistérios de Elêusis é que nele qualquer pessoa poderia ser iniciada, não importando sua origem ou status social: estrangeiros, mulheres, escravos, prostitutas, todos eram bem vindos em Elêusis! O ritual começava ainda na cidade de Atenas, com uma purificação no mar. Dois dias depois, os participantes dirigiam-se a cidade de Elêusis em uma peregrinação de cerca de 30 quilômetros. Durante a caminhada ocorriam danças sagradas, libações e muitos cantos acompanhados de flautas. Fazia calor e muita poeira, mas a multidão não se importava e invocava o deus Íaco, ao longo de todo caminho. Todos experimentavam uma inversão e confusão da ordem social: já durante a caminhada, todos eram iguais, homens e mulheres, nobres e escravos, ricos e pobres. Chegando em Elêusis ao anoitecer, encontravam um espaço sagrado para danças circulares.

Só a caminhada rigorosa já produz um tipo de euforia, modificando o sistema dopamínico e serotonérgico, ou seja, já é um fator de alteração de consciência! Mas o que realmente chamou a atenção de Gordon Wasson, Carl Ruck e Albert Hoffman, foi a bebida que era servida aos participantes nas duas noites dos rituais propriamente ditos: o kykeon!

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Perséfone e Hades. Fonte: Theoi.

O kykeon era uma bebida ritualística cujos ingredientes desconhecemos ao certo (tudo era segredo!), mas algumas evidências indicam que era feito a partir de algum grão, provavelmente trigo ou cevada, mais algumas ervas, menta ou poejo. Após a ingestão da bebida, os participantes adentravam o templo completamente escuro, iluminado por apenas algumas tochas. Ali, ocorriam visões fantásticas, de alto impacto emocional. Na primeira noite, ocorria a dramatização do mito de Deméter e sua filha Perséfone, duas facetas da Grande Mãe Natureza. Perséfone é raptada por Hades, o mundo subterrâneo, deixando sua mãe Deméter, a Mãe Natureza, triste e desolada. Ao descobrir que Perséfone tornara-se rainha do mundo subterrâneo, Deméter faz um pacto com Zeus, o Grande Pai, para que sua filha passe uma parte do ano junto à Mãe. Assim, quando Perséfone encontra-se com Hades, Deméter se entristece e toda a natureza definha. Quando Perséfone encontra-se com a Mãe, Deméter fica feliz e toda a natureza volta a verdejar e florescer. Esse é o ritmo da vida, com suas diferentes estações, Outono, Inverno, Primavera e Verão. Na segunda noite de iniciação, novamente após a ingestão do kykeon, ocorria a dramatização do hieros gamos, a sagrada união sexual entre Deméter e Zeus, danças, cantos, terminando com o clímax, o nascimento do filho de Deméter, Plutão, (às vezes Dionísio).

O que havia realmente nessa bebida que fazia os participantes terem experiências tão impactantes? Poderia haver alguma substância psicoativa entre os ingredientes? Movidos por essas questões, Wasson, Hofmann e Ruck reuniram-se em 28 de outubro de 1977 na Segunda Conferência Internacional de Cogumelos Alucinógenos e leram os três papers que formam o livro The Road to Elêusis, onde apresentam evidências tanto literárias e históricas, quanto biológicas e químicas, de que o grão utilizado na preparação do kykeon era possivelmente contaminado pelo fungo ergot, o mesmo utilizado para a síntese do LSD por Hofmann em 1938. A importância das questões levantadas nessa Conferência é que elas desafiam a nossa visão sobre a Grécia Antiga, tão celebrada por sua filosofia, berço da cultura e dos valores ocidentais mais caros, como a lógica e a democracia, e mostra que os estados não ordinários de consciência fazem parte da nossa história e da nossa religiosidade há milênios.

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Obra seminal de Wasson, Hofmann e Ruck. Completou 40 anos no último dia 28 de outubro de 2017.

Os Mistérios Eleusinos eram tão caros a Albert Hofmann que a eles retorna em um novo texto de 1997 intitulado “A mensagem dos Mistérios Eleusinos para o mundo de hoje” no livro “Enteógenos e o Futuro da Religião”. E também em uma carta de abril de 2009:

“A alienação da natureza e a perda da experiência de ser parte da criação da vida é a maior tragédia da nossa era materialista. É a causa da devastação ecológica e da mudança climática. Portanto eu atribuo a maior importância à mudança da consciência. Eu considero os psicodélicos como catalisadores para isso. Eles são ferramentas que estão guiando nossa percepção para outras áreas mais profundas da nossa existência humana, de forma que novamente podemos ter consciência da nossa essência espiritual. Experiências psicodélicas em um local seguro pode ajudar a nossa consciência a se abrir para essa sensação de conexão e de ser uno à natureza… É o meu desejo que uma moderna Elêusis irá emergir, na qual humanos buscadores poderão aprender a ter experiências transcendentais com substâncias sagradas em um lugar seguro. Eu estou convencido de que essas substâncias que abrem a alma e que revelam a mente encontrarão um lugar apropriado em nossa sociedade e em nossa cultura.”

Para finalizar, gostaria de ressaltar que os Mistérios Eleusinos não garantiam nada após a morte, não há menção sobre a imortalidade ou sobre transmigrações da alma. O objetivo era a fertilidade agrícola, celebrar o ciclo da natureza e da vida, pois entendia-se que só a vida em sua efêmera manifestação material poderia conceber a felicidade. Por isso, criemos nossos oásis, nossas modernas Elêusis, e que Deméter favoreça todos aqueles que ainda hoje (e sempre!) reúnem-se para vivenciar o sagrado!

Beatris Ribeiro Gratti é astróloga e professora de Latim e Grego Clássicos. Bacharel em Filosofia e Mestre em Linguística (UNICAMP). Pesquisadora da religiosidade greco-romana, especialmente os oráculos e métodos divinatórios da antiguidade

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