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Alternativa

O Padre

Padre, eu tenho pecado, sonhei com uma cidade desconhecida chamada Zobei, eu tava perdida, chegaram novos homens de outros países, eles me cheiravam, estavam com sede… Eu vivia nua nessa cidade. O que eles não sabiam o que os atraiam era uma armadilha.

Fui obrigada, arrastada pelos braços pra aquela escola, meu pai vivia dizendo que era insana, precisava ficar perto de Deus. Fui… Aos 12 anos, sempre com goma de mascar na boca, fazendo barulho, incomodava, queria chamar atenção. Mini saia, blusa entreaberta, meia até o joelho, sapatinho xadrez, usava cabelo rabo de cavalo, queria chamar atenção. Eu vi um homem de Deus, puro, intocável, crucifixo no pescoço, na missa aos domingos, minha calcinha ficava molhada, sentia vergonha, quando a igreja ficava sem ninguém eu colocava dois ou três dedos, me masturbava. Um dia cheguei ao confessionário toda coberta, fiquei de joelho, havia um pano sobre meu rosto, não queria ser vista, eu tinha vergonha, muita vergonha, mas chegou perto, e tirou e viu meu rosto pela primeira vez. Primeiro os olhos, depois a boca, foi muito claro. Fechou os olhos tentando adiantar-se á agonia do momento, mas o fato dele saber que tava ali, não tinha forças para se desprender de me olhar.

Eu não prestava mais atenção na aula, minhas notas caíram, eu só pensava em sexo, uma vez a professora me pegou desenhando um pênis, quase fui expulsa. Meus pais quando souberam, me trancaram no quarto por uma hora, eu dei um gole de perfume.

A escola que eu estudava era um labirinto, tinha uma espécie de “floresta” atrás e casas abandonadas, no segundo andar eram os quartos dos padres. Nunca ninguém subia lá com exceção deles.

Uma vez eu tava jogando voley com as meninas, eu vi ele me olhando da janela do seu quarto. Parecia me chamar pro inferno. Eu era o inferno. Porque no meio das minhas pernas eu sentia um fogo.

Reunião de padres, meu pai sempre atrasava pra me buscar por causa do trabalho, então aproveitei e subi nos quartos, peguei um batom vermelho passei na boca e beijei todo seu quarto, passei a língua na bíblia e abri, tinha algo escrito: “Lola, tão linda que só espalha sofrimento, tão cheia de pudor que vive nua.” Eu já sabia, ele tinha se apaixonado. A noite eu chorei compulsivamente no meu quarto, eu senti medo.

As vezes eu saia no meio da aula e ficava vagando pra olhar as árvores, catava as frutas do chão, como minha mãe reclamava que chegava muito suja em casa, tirava o uniforme e ficava só de sutiã. Subi uma arvore tão alto, que não conseguia descer, mentira, eu sabia, mas gritei, ele apareceu, me ajudou a descer, mordi um jambo, ele veio pra cima de mim com uma fúria, segurou nos meus braços com tanta força no gesto que ia me beijar “não posso, você é uma menina, apenas uma menina.” De súbito, sentido que ia explodir em lágrimas, correu e pôs-se a andar sem saber para onde…

Todo dia eu rezava, eu lia a bíblia, realmente me dediquei ao catolicismo, meu pai um católico nato, o que lhe restava era orgulho, mas o que me interessa mesmo era aquele pobre homem… Sentava na frente na missa, ficava de cara com ele.

Já era inevitável, insuportável, eu já não era a mesma, meu corpo era outro, já tinha se passado três anos nessa brincadeira, muita coisa foi dita um ao outro, mas nada acontecia. Levei uma roupa branca pra escola, um vestido liso, troquei no banheiro, antes da aula começar, passei pelo corredor vestida de branco, sem nada por baixo, passei pelo corredor da escola todo mundo me olhou. Eu virei olhei pra ele, voltou-se e mirou-se como se fosse a última vez e foi atrás. Na igreja, ás seis da tarde, o sino tocava, eu dizia “adeus” dentro de mim, tirei a roupa e ele parado olhando da porta, fique de costa nua, e ele avançou, quebrou o crucifixo com toda a força, me colocou na parede, e o sangue escorreu pelas pernas, senti que eu morri ali, fui pro céu e peguei nas mãos de Deus. Os santos caíram no chão.

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