banner ocb
Música

Conheça os Afrosambas

baden e vinicius reduz 0 - Conheça os Afrosambas

Os Afrosambas, do consagrado poeta Vinicius de Moraes e do igualmente consagrado violonista Baden Powell.

Este texto antes de mais nada é uma visão sociológica e cultural de um projeto que ultrapassou o oceano atlântico e desaguou na vertebra do patrimônio musical brasileiro. Os Afrosambas, do consagrado poeta Vinicius de Moraes e do igualmente consagrado violonista Baden Powell.

Vinicius e Baden, soa como Batman e Robin, ou melhor, Batman e Batman, igualmente enormes em suas contribuições – – já haviam trabalhado juntos anteriormente, mas foram impulsionados a dar luz ao disco em questão quando perceberam que dividiam a paixão pela cultura africana, efervescente na Bahia, e pelos sambas de roda invocados na linha mais melódica e mística da Umbanda e Candomblé.

Em um projeto liquidificador, assimilaram a ideia, beberam do mesmo copo, e foram ambos fazer a poesia necessária para dar a luz a obra que é considerada divisora de águas da MPB e da música universalista.

Baden e seu violão, Vinicius e suas palavras, o samba e seus cânticos, a Umbanda e seu misticismo, o Candomblé e suas raízes, ambos pesquisadores de som e assimiladores de cultura, um virtuose das cordas, outro virtuose da escrita, ambos virtuoses da música e uma década de 60 pela metade, expelindo revolução cultural em todos os cantos do país. O resultado foram 8 músicas de samba poético orquestradas minuciosamente pelo mais belo cântico africano, embalado por um cirúrgico berimbau angolano.

O ano era 1966, a guitarra elétrica invadia o mundo, a cultura americana e inglesa encantava e iludia os jovens com a promessa da rebeldia sem causa e de um visual descolado. Existia um sério risco de experimentalismos exóticos demais acabarem incompreendidos em meio ao turbilhão cultural que embalava a era mais criativa da música e da arte pop. Os afrosambas funcionam perfeitamente como uma resposta tipicamente brasileira de dois artistas que encontraram a inspiração para a genialidade, nos seus antepassados africanos, mesmo que o mundo se curvasse ao charme branco dos inúmeros Elvis Presley e Sinatras que dominavam a cena.

É o preto no marrom, o violão e o pandeiro, o berimbau e um sax, um poeta e um violeiro. Na faixa abertura, “O Canto de Ossanha”, o samba é falsamente desconstruído como música de atmosfera tipicamente alegre e toma uma forma mística, obscura e ritualista, que volta a ficar alegre assim que a flauta cessa e se inicia o refrão. Temas como amor, tristeza, religiosidade e solidão se mesclam em meio a homenagens sonoras ao berço do mundo, que no fim, ficam presas na nossa cabeça feito cantigas de roda. O coro canta com prodígios como Betty Faria, e as instrumentações variam de contrabaixo e agogô a atabaque. Quando não os três juntos.

Um disco conceitual indicado aos que gozam com a ampla possibilidade de exploração cultural que a música nos proporciona, uma viagem a uma África mãe do Brasil, abençoada por todos os Deuses e querida e respeitada pelos maiores poetas. Mas também indicado aos que querem entender a nossa origem cultural, não exatamente de onde viemos, mas possivelmente, por onde passamos.

Na contracapa Vinicius deixa claro o que os Afrosambas representa para a cultura popular brasileira, e reafirma Baden como o melodista dessa ópera de todos os santos.

Essas antenas que Baden tem ligadas para a Bahia e, em última instância para a África, permitiram-lhe realizar um novo sincretismo: carioquizar dentro do espírito do samba moderno, o candomblé afro brasileiro dando-lhe ao mesmo tempo uma dimensão mais universal (…) nunca os temas negros de candomblé tinham sido tratados com tanta beleza, profundidade e riqueza rítmica (…) é esta sem dúvida a nova música brasileira e a última resposta que da o Brasil, esmagadora à mediocridade musical em que se atola o mundo. E não digo na vaidade de ser letrista dos mesmos; digo-o em consideração a sua extraordinária qualidade artística, à misteriosa trama que os envolve: um tal encantamento em alguns que não há como sucumbir à sua sedução, partir em direção ao seu patético apelo”.

Vinicius de Moraes

Comente também!

comentários

banner ocb
Click to comment

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

To Top